A DOMINGOS SEQUEIRA Saindo de Portugal

                       

                “Fuge litus avarum. Viro.”
 


Filhas da natureza,
Artes divinas
Que dourais a existência,
Que o mimo sois da vida, o doce afago
Que abranda nossas penas.
Nem vás, cândidas virgens, nem vós mesmas
Dos grilhões escapastes
Com que amarrou, aos argolões do Averno,
A tirania, a terra,
O sopro crestador do Despotismo
Vos murchou graça e flores:
Da escravidão o bafo pestilente
Da face pura e ingênua
Vos destinguiu a candidez e o pejo;
A sáfara lisonja,
Coa torpe mão, no rosto macerado
Vos pôs fingida máscara.
Trasmudadas assim vos viu o mundo
Erguer com servil destra
Padrões inglórios ao coroado vicio,
Monumentos à infâmia.
Tal o cinzel que lavra insigne estátua
A Catões e a Titos,
Corta o busto de Nero e de Calígula;
Tais as divinas tintas
Que as augustas feições eternizaram
De Sócrates, de Fócion,
No adulador pincel perdendo a glória,
De torpes Heliogábalos
Rosto envergonhador da humanidade
Criminosas conservam...
Bem-vindo sejas, à Sequeira ilustre.
Dessa terra maldita
Onde crucificou a Liberdade
Povo de ingratos servos.
Tu que os louros de Vasco e de Campelo
Reverdecer fazias
Por aquele maninho preguiçoso
Que foi terra de Lísia,
Filho de Rafael, bem-vindo sejas
A este asilo santo,
Com o nobre pincel, não poluído
No louvor dos tiranos,
Aqui celebrarás antigas glórias
Da que foi nossa pátria,
Ou gravarás em lâmina profética
O suplício tremendo
Que a seus cruéis algozes tem guardado
O Deus da Liberdade.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid


Comments