A Caverna De Viriato


“Yet came there the morrow

That shines out, at last in the longest dark night.”

(T. Moore.)

 

I

Sobre os eternos gelos

Que os picos anuviados

Do alto Hermínio coroam,

Penteava a Aurora os fúlgidos cabelos,

E dos anéis ondados

As auras matutinas

Sopravam brandamente

Violas e boninas,

Que para lhe toucar a rósea frente

Colhera a Noite nos jardins do Oriente.

 

II

Da precursora estrela

Alva amortece a luz languidamente,

Qual nos olhos expira

Da rendida donzela

Quando em braços do amante amor lhos cerra

O espírito da serra,

Cujo é o cetro das hórridas montanhas,

Dessa luz indignado

Que seu trono de nuvens lhe dispersa,

O voo despregado

Coas asas fuscas bate.

 

III

Sobre as águas pairou do morto pego

Onde vivente fol'go não demora,

E cum sorriso negro,

Semelhante ao que ri na fatal hora

O anjo do mal à cabeceira do ímpio,

Contempla na voragem

As antenas quebradas, rotas quilhas,

Tributo de homenagem

Que o gênio lhe enviou da tempestade,

Por vias não sabidas de olho humano,

Dos sotopostos reinos do Oceano.

 

IV

Qual seta desferida do arco de ébano

Do arcanjo da morte.

Desce de golpe o espirito da serra,

E mergulhou nas águas. Treme a terra;

Os subjacentes mares

De abóbada em abóbada gemendo,

Do boqueirão tremendo

Mandam hórrido som que estruge os ares.

 

V

Mas já coa doce luz do Sol infante

As nuvens acossadas

A frente da alta serra destoucavam.

Sobre a relva, no cálice das flores,

Qual índico diamante,

Gotas acrisoladas

De puro orvalho brilham multicores;

E as plantas acordadas levantavam

Para saudar a luz a hástia pendida

Do esfriado relento.

A toda a natureza

Vem do astro criador amigo alento,

Que remoça, que alegra e expande a vida.

 

VI

Glória dos altos montes,

Magnífico Hermínio, a quem saúda

A português loquela

Co gentil nome da formosa estrela

Com que tua fronte a topetar se atreve;

Nunca manhã mais bela

Por teus broncos penedos,

Tuas úmidas grutas,

Teus altivos, gigânticos rochedos,

Catadupas sonoras,

Torrentes gemedoras,

Viçoso, ameno prado

Jamais raiou no Oriente apavonado.

 

VII

Salve, berço do nome lusitano!

Nesta manhã solene.

Que, em volver de ano e ano,

Jamais acabará que a apague o tempo

Da saudosa memória;

Nesta manhã de glória

A ti veio, a ti venho, asilo santo

Da lusitana antiga liberdade.

Tuas lôbregas cavernas

Me serão templo augusto e sacrossanto,

Aonde da Razão e da Verdade

Celebrarei a festa.

Ouça-me o vale, o outeiro,

Escute-me a floresta

Aonde do seguro azambujeiro

Seus cajados cortavam

Os pastores de Luso,

Que a defender a pátria e a liberdade

Nesses tempos bastavam

De honra e lealdade.

 

VIII

Hoje!... – Meu sacro rito

Aqui celebrarei nesta caverna.

Teu santuário é toda a natureza,

Potestade superna,

Deus do homem de bem, Deus de verdade,

Imensa majestade

Que do nada tiraste a redondeza

 

IX

Ouve-me, ó Deus, recebe

Meu puro sacrifício.

No torpe malefício

Da traição não manchei

Minhas mãos inocentes,

Nem sacrilégio ousei,

Teu altar profanando,

Queimar o incenso vil da hipocrisia

Coa destra parricida gotejando

Sangue da pátria, lágrimas fraternas,

Suor da viúva e do órfão.

Escuta, ó Deus nas regiões eternas,

Minhas ações de graças neste dia,

Dia que a resgatar-nos

Do cativeiro odioso

Estendeste o teu braço poderoso;

E a razão, liberdade,

Dons teus, do homem perdidos,

Restituíste à opressa humanidade.

 

X

Mas que sinto! – Desvairam-me os sentidos?

Estas cavernas tremem...

Em torno os ares fremem...

De eco em eco medonhos estampidos

Refletem pavorosos!

Do extremo fundo lá desse antro surde

(Visão estranha é esta)

Espectro, sombra...

– Manes gloriosos

Sois vós de algum herói? – A lança, o escudo

Embraça, empunha: aos pés Águias romanas

Prostradas!... oh! Viriato

És tu, sombra magnânima...

 

XI

Tua caverna é esta:

De tua glória e teu nome é cheio ainda

O vale, monte e floresta,

Libertador da antiga Lusitânia,

Das regiões da morte

Vieste ver raiar a doce aurora

Da nova liberdade.

Sobre teus pátrios montes?

Esconde, esconde a face, ó varão forte,

Volve ao túmulo – a raça traidora

Não acabou no vil que a preço indigno

Te vendeu aos tiranos do universo:

O sangue desse monstro

Em quantos corações bate hoje à larga!

São mil por um perverso;

Cobardes todos. – Ferros que empunharam

Os Lusos teus para salvar a pátria,

Adagas de sicários se tornaram

Em mãos de Portugueses.

 

XII

Pátria!... não temos pátria...

Oh! não há para nós tão doce nome.

Grilhões, escravos, cárceres e algozes

De quanto outrora fomos,

Isto só nos restou, só isto somos.

 

XIII

 “Não! sois mais que isso. O dia da justiça

Do Eterno chegará. Sua hora tarda,

Mas infalível, soará na altura;

E os ecos da planície há de anunciá-la.

Os ímpios buscarão onde esconder-se,

E a terra negará couto a seus crimes.

Mares de sangue cobrirão a terra.

E a morte folgará sobre as ruínas.

 

XIV

“Mas quem, quem desprendeu as cataratas

Do sangue, do castigo?

O ímpio que blasfemou

E de dizer ousou

No tredo coração:

– Não há Deus; abusemos

Afoitos de seu nome

Para avexar os povos; escudemos

Co esse fantasma vão nossos embustes.–

 

XV

“Cegos! nadai no pélago de males,

Lutai coa ânsia da morte: não há tábua

Para vós, não de salvação, de espr'ança.

– Uma arca só por esses mares voga,

Arca de aliança nova,

Santa, e sagrada é esta!...

Pacto de Deus cos povos. Liberdade

Só restará do universal dilúvio:

Da raça dos tiranos,

Da fratricida guerra

Que ateara a opressão entre os humanos.

Nem a memória ficará na Terra.”

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid




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