Trevas no tempo

 

De dia não se via nada, mas pela tardinha já se apercebia gente que vinha de punhais na mão, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo neles.
E os punhais não brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de lençóis de linho escorridos de ombros franzinos.
E a brisa que vinha dava gestos de asas vencidas aos lençóis de linho, asas brancas de garças caídas por faunos caçadores.
E o vento segredava por entre os pinheiros os medos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por mor do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite ceguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta.
E vinha a sonhar.
As sombras ao vê-la esconderam os punhais nos peitos vazios.

A lua é uma laranja doiro num prato azul do Egipto com pérolas desirmanadas.
E as silhuetas negras dos pinheiros baloiçados na brisa eram um bailado de estátuas de sonho em vitrais azuis.
Mãos ladras de sombra levaram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da brisa dos túmulos, havia surdinas de gritos distantes - e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros gigantes.
A brisa fez-se gritos de pavões perseguidos.
E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheirais p'lo meu respirar.

Escondidas todas por detrás de todos os pinheiros, chocam-se nos ares os punhais acesos.
Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte.
Vêem mais bruxas, trazem alfanges e um caixão.
Doem-me os cabelos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de além do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.

Veio a manha e foi como de dia: não se via nada.

Autor: Almada Negreiros (1893-1970)
Editado por: nicoladavid

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