Sèvres Partido

 

A amazona negra era bela como o sol e triste como o luar, e ninguém acredita mas era pastora de galgas. Figura negra muito esguia, cipreste procurando vaga na margem do caminho.

Nas manhãs de Outono, frias como os degraus do tanque, era ela quem largava às galgas a lebre cinzenta, e a que a filasse já sabia com quem dormia a sesta. E as galgas já nem dormiam bem noutra almofada.

Sobre a relva, na sombra rendilhada das folhas amarelecidas dos plátanos onde os repuxos do tanque cuspiam lágrimas de vidro, a Amazona negra sonhava o seu Príncipe encantado e a galga do dia dormia quieta, estendido o focinho no ventre dela.

Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes, de focinhos pendidos - e nenhuma para dormir a sesta!

Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos de guizalhadas surdas.

Calou-se a flauta, um cipreste distante gemia baixinho as dores da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o nome do seu Bem. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda torcida.

As galgas como setas deixaram nu o caminho. E as guizalhadas...

Autor: Almada Negreiros (1893-1970)
Editado por: nicoladavid

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