"Encontro"


Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio? 

Estou parado no mundo. Só sei 

escutar de longe antigamente ou lá 

pró futuro. E bem certo que existo: 

chegou-me a vez de escutar.

 

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

 

O meu alimento é o silêncio do mundo 

que fica no alto das montanhas e não

desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

 

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

 

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

 

Levaram-me o orgulho todo deixaram-me

a memória envenenada e intacta a torre

de marfim. Só não sei que faça da porta

da torre que dá para donde vim.

 

 

Autor: José de Almada Negreiros (1893-1970)
Editado por: nicoladavid



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