"Distante do Sonho"


Recordo aquela noiva de vitral
Que numa esguia roca de cristal
Fiava os meus sentidos,
Que vinha manhã cedo junto ao lago
Banhar o níveo corpo etéreo e vago
No lago dos leões adormecidos.

 

Passaram tantos anos, tantos, tantos,
Que os leões acordaram, são encantos.
As mãos com que fiava desmaiaram,
E as palmeiras que dormem na alameda,
Braços erguidos, desdobrando seda,
Contam ainda a história que escutaram.

 

Passaram tantos anos, tantos, tantos,
Que o lago recordando outros encantos
Dorme vencido de quebranto e calma.
E a roca que fiou os meus sentidos
Sente ainda em si os dedos entretidos
De Alguém que só viveu para ser Alma.

 

O repuxo, contando a melodia
Daquela estranha e branca escadaria
Que ela cismava pela manhã cedo,
Calou-se, adormeceu. Fechada a porta.
Cansadas aias, folhas do arvoredo,
Andam em busca dessa noiva morta.

 

E encontraram a túnica rasgada,
Aquela linda túnica bordada
Que ela tecera para se casar.
O luar pra descer, desce por mim.
E ela descia para ver se assim
Encontrava o mistério de sonhar.

 

A porta do palácio está fechada.
Adormeceu também, abandonada.

A dobadoira de âmbar está em bocados.
Tacteio. Cismo. Uma saudade morta.
Meu Deus, não sei se está fechada a porta
Ou se os meus olhos é que estão fechados.

 

 

Autor: Alfredo Guisado (1891-1975)
Editado por: nicoladavid



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