O Morto

 

O morto, assim barbeado,

assim vestido, calçado,

está pronto a ser enterrado,

está pronto a ser olvidado,

que ele agora é uma coisa,

é de fora para dentro.
Só aos vivos falta o tempo.

A ele não, que é uma coisa.

Não tem lazer, que fazer,

nem aflição ou dívida.

Qualquer destino lhe serve

à maravilha.

E tanto se lhe daria

ser o defunto na sala,

como carcaça na vala

ou objecto de poesia.

Mas não se esquecem os vivos

de condimentar o morto.

Para que dele não fique

mais que o osso?

 

Autor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
Editado por: nicoladavid

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