No Reino Do Pacheco

 

Às duas por três nascemos,

às duas por três morremos.

E a vida? Não a vivemos.

 

Querer viver (deixai-nos rir!)

seria muito exigir...

Vida mental? Com certeza!

Vida por detrás da testa

será tudo o que nos resta?

Uma ideia é uma ideia

- e até parece nossa! -

mas quem viu uma andorinha

a puxar uma carroça?

 

Se à ideia não se der

O braço que ela pedir,

a ideia, por melhor

que ela seja ou queira ser,

não será mais que bolor,

pão abstracto ou mulher

sem amor!

 

Às duas por três nascemos,

às duas por três morremos.

E a vida? Não a vivemos.

 

Neste reino de Pacheco

- do que era todo testa,

do que já nada dizia,

e só sorria, sorria,

do que nunca disse nada

a não ser para a  galeria,

que também não o ouvia,

do que, por detrás da testa,

tinha a testa luzidia,

neste reino de Pacheco,

ó meus senhores que nos resta

senão ir aos maus costumes,

às redundâncias, bem-pensâncias,

com alfinetes e lumes,

fazer rebentar a besta,

pô-las de pernas pró ar?

 

Por isso, aqui, acolá

tudo pode acontecer,

que as ideias saem fora

da testa de cada qual

para que a vida não seja

só mentira, só mental.

Autor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
Editado por: nicoladavid

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