Guichê / 3

 

Dum cutelo-guichê sem higiafone

senti o frio na nuca e, por broma, imaginei-me na nuca de Antonieta

(referência cultural como qualquer outra).

Dar o pescoço e nem por aférese perder a cabeça

não é para todos quando nos burocratas.

Das doze e trinta às catorze e trinta

estive garrotado e encimado por um letreiro:

ENCERRADO.

Estiquei a língua para um frasco de cola,

mas só a mosca dos tinteiros nele arriscava duas das patas.

Meditei (que fazer?) a gasta superfície do balcão

e, português derrotado, pensei:

"Onde veio parar a madeira das naus!"

O tempo demorava a passar como aquela estúpida reflexão

e eu, de grossa língua seca, sentia as ardências todas

do nauta que tragou meia barrica de sardinha.

Das mãos fiz passarinhos cegos contra o vidro,

baquetas ruflando a minha impaciência,

aranhas passeando o que me restava de pescoço.

"Vou pôr-me todo nos olhos, que os olhos salvam!"

e pela ponte pênsil dum olhar passei para o relógio,

que adiantei meia discreta hora.

Do mostrador alcancei uma flor num copo.

Com ela devaneei numa lapela imaginária,

mas o passeio não deu para mais nada.

Tocou a campainha e um contínuo entrou.

"Que faz aqui o senhor? O expediente ainda está encerrado!",

praguejou o contínuo e, dando meia volta,

correu a chamar o general dos contínuos.

Este veio. Passou-me revista. Não se dignou falar-me.

Ainda hoje gostava de saber porquê.

Às catorze e trinta (três pela minha hora)

uma funcionária aproximou-se do guichê,

levantou o cutelo que me sujeitava,

retirou o letreiro e (até amável!) perguntou-me:

"O senhor o que deseja?"

E era, à beira-guichê, como se não tivesse acontecido nada.

 

Autor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
Editado por: nicoladavid

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