Ana Brites, a coitada

 

Ana Brites, a coitada,

está no seu canto, enfartada,

a brancura do cabelo

na brancura da almofada,

a roupa da cama, pois,

bem dobrada e alinhada.

 

Ana Brites, camponesa

do fundo de Portugal,

com um tubo no nariz,

não pensa nem bem nem mal,

vê imagens, as da vida,

que até agora viveu,

vê a Castanha, a vaquinha,

o que no eido ocorreu,

vê-se em pequena, sozinha,

por esses montes, além,

caminho das letras gordas

também das quatro operações,

vê-se já em rapariga,

a alfinetar corações.

 

Vê o primeiro que pôs

rumores no seu coração,

um moço de grande lábia

sempre alegre e espertalhão.

Vê aquele que a levou,

por uma vez ao altar,

e vai, no seu corpo entrou,

como na casa o ladrão,

para a deixar com um filho

que é a sua devoção.

 

Ana Brites, a coitada,

sente, às vezes, a dor fina.

Apetece-lhe gemer,

mas é muito envergonhada,

além de não ser menina.

 

É então que uma senhora,

branca, de sorriso doce,

aparece em boa hora,

põe-lhe a mão no peito murcho

e vai-se embora só quando

a dor fica aliviada.

 

Ela não sabe quem é,

mas por seu bem ou seu mal,

habituou-se a chamar-lhe:

Senhora do Hospital.

 

Autor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
Editado por: nicoladavid

 
 
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