Eras tu que eu sonhava

 

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.

 

Se na terra este amor de poeta
Coração há que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar.

 

Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o Sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma imensa de um rei da harmonia;

 

Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de mudo suspiro.

 

Para mim és tu hoje o universo;
Soa em vão o bulício do mundo;
Que este existe somente onde existes;
Tudo o mais é um ermo profundo.

 

No silêncio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor: tu m'a deste:
Em ti creio por ela, oh meu Deus!

 

Autor: Alexandre Herculano (1810-1877)
Editado por: nicoladavid

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