"A Rosa"

 
 

Pura em sua inocência,
Entre a sarça espinhosa,
Purpúrea esplende, inda botão intacto
na madrugada a rosa.

 

É da campanha a virgem
A pudibunda flor;
Em seus eflúvios matutina brisa
Bebe o primeiro amor.

 

O sol inunda as veigas;
Calou-se o rouxinol;
E a flor, ébria de glória, à luz fervente,
Desabrochou-a o sol.


O sopro matutino
No seio seu pousara:
Prostituída à luz, fugiu-lhe a brisa,
Que a linda rosa amara.
 

Bela se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos, gorjeando, as aves;
Voam do gozo as horas.
 

Lá vem chegando a noite,
E ela empalideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a selva;
A rosa ernurcheceu.
 

Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;
Desfalecida a flor desprende as folhas,
Que o vento vai sumindo.

Onde estará a rosa,
Do prado a bela filha?
O tufão, que espalhou seus frágeis restos,
Passou: não deixou trilha.
 

Da sarça a flor virente
Nasceu, gozou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro importa?
 

Nenhum, nenhum por ela
Gemeu saudoso à tarde;
Não há quem junte as derramadas folhas,
Quem amoroso as guarde.


Só da manhã o sopro,
Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a inocência
Em seu botão sorria.

Junto do tronco humilde
O curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
Queixoso sussurrando.

De quantas és a imagem,
Oh, desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulcro abjecto
Tem murmurado o amor!

 

 

Autor: Alexandre Herculano (1810-1877)
Editado por: micoladavid

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