Com o espírito morto de sede…



Com o espírito morto de sede,
Rojo-me num deserto escuro,
E voa um anjo de seis asas
Na encruzilhada dos seus rumos.
Com dedos leves como o sonho
O serafim toca-me nos olhos:
Uns olhos profetas se abriram 
Como os da águia assustada.

Eis que me assoma os ouvidos
E os enche de alvoroço:
Escuto o tremer do céu, o alto
Voo dos anjos, o deslizar
Subáqueo do monstro marinho
E a rosa a crescer no vale.

Sobre a minha boca se inclina
E arranca a língua ardilosa,
Carpideira, iníqua e vã,
E com a dextra ensanguentada
Põe o dardo da sábia cobra
Na minha boca silenciada.

Com a espada me corta o peito,
O meu coração latejante
Despega, e no vão negro do seio
O anjo mete a brasa viva.

Estou, como morto, no deserto
E a voz de Deus por mim clama:
"Ergue-te, ouve e vê, profeta,
Da minha vontade te tomes,
Mares e terras percorre, queime
Teu verbo o coração dos homens."

Autor: Aleksander Sergeievitch Púchkin (1799-1837)
Editado por: nicoladavid     

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