Tu pensarás em mim

 

Tu pensarás em mim, por esta noite imensa

e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?

Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,

tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,

eu penso em ti, no teu amor e na promessa

muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

 

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

 

Sob a tenda da noite estrelada de outono,

que eu contemplo através os cristais da janela,

junto ao manso tepor da lâmpada que escuta

— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas

vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

 

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

 

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.

Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —

que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;

nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin

agonizando à luz de uma tarde de sonho;

na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.

Penso.

 

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

 

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,

onde se extingue a luz de um velho candelabro

como uma lâmpada votiva, tu adormeces

sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha

para que tu não tenhas sonhos maus.

 

E eu penso

em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,

em ti, que nem eu sei se te lembras de mim...


Autor: Alceu Wamosy (1895-1923)
Editado por: nicoladavid

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