Idealizando a morte

 

Morrer por uma tarde assim como esta tarde:

Fim de dia outonal, tristonho e doloroso,

Quando o lago adormece, e o vento está em repouso,

E a lâmpada do sol do altar do céu não arde.

 

Morrer ouvindo a voz de minha mãe e a tua,

Rezando a mesma prece, e ao pé do mesmo santo,

Vós ambas tendo o olhar estrelado de pranto,

E no rosto, e nas mãos, palidezes de lua.

 

Morrer com a placidez de uma flor que se corte,

Com a mansidão de um sol que desce no horizonte,

Sentindo a unção do vosso beijo ungir-me a fronte,

- beijo de noiva e mãe, irmanados na morte.

 

E morrer . . . E levar com a vida que se trunca,

Tudo que de doçura e amargor teve a vida:

- O sonho enfermo, a glória obscura, a fé perdida,

E o segredo de amor que eu não te disse nunca!

 

Autor: Alceu Wamosy (1895-1923)
Editado por: nicoladavid

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