Província


Ai flores, ai abandonadas flores das rendas das meninas do solar!
 
As meninas, à varanda, olham para a paisagem sem vê-la,
na espera inútil dum acontecimento que venha perturbar
este domingo vagaroso de aldeia.

O sol faz mais sóis nas vidraças que guardam tranquilos mistérios lá dentro.

Sobre os muros debruçam-se trepadeiras floridas,
e dum quintal vem a voz aguda duma criança correndo.
 
Um par de namorados olha o chão e o céu azul sem nuvens.

Longe, pelo rio, os barcos parecem parados numa aguarela...

Na praça, há a conversa dos homens importantes da terra,
conversa cheia de silêncios como a tarde...

— «Quando eu estive em Lisboa...» Fica uma saudade no ar...
 
Um jovem silencioso compõe o nó da gravata austera,
e um sorriso, na sua face iluminada, sonha:
«Quando eu for a Lisboa...

 

Autor: Alberto de Serpa (1906-1992)
Editado por: nicoladavid

Comments