Dizendo que é só amor

 

Dizendo que é só amor

fazes Deus menor que Deus

cercas o ilimitado

dos limites que são teus.

 

Deixa de estufar o peito

quando fazes tuas rondas

talvez teu cérebro seja

só um bom detector de ondas.

 

Do que é o Espírito Santo

só diga quem fique mudo

que palavra há que me leve

àquele nada que é tudo.

 

E venha filosofia

teologia que farte

o que se pense de Deus

é só de Deus uma parte.

 

Nunca voltemos atrás

tudo passou se passou

livres amemos o tempo

que ainda não começou.

 

É só bem dentro de nós

que o projeto se anuncia

se retoma se reforma

e se volta à luz do dia.


É o mundo que nos coube

perpétua ronda de amor

do criado ao incriado

por sua vez criador.

 

Mais longe estás se houve início

mais perto se o tempo finda

e a rosa que em ti abriu

é em mim botão ainda.

 

Mais que a teu Deus sê fiel

ao que tu sejas de Fé

talvez o Deus que te crias

oculte o Deus que Deus é.

 

Mais que tudo quero ter

pé bem firme em leve dança

com todo o saber de adulto

todo o brincar de criança.

 

O mundo é só o poema

em que Deus se transformou

Ele existe e não existe

tal a pessoa que sou.

 

Todo momento que foge

a eternidade encerra

só atingirás o céu

por cuidado passo em terra.

 

Talvez seja isto somente

o de mais perfeito ensino

ter homem a liberdade

de se entregar ao destino.

 

Divino espírito santo

senhor do imprevisível

me toma pois da verdade

só quero o que for incrível.

 

Como durmo sossegado

sabendo que por mim vela

uma coisa que sonhando

vivo me tem dentro dela.

 

Autor: Agostinho da Silva (1906-1994)
Editado por: nicoladavid
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