Ode Marítima (excerto)


Ode Marítima (excerto)

 

[…]

 

Ah, o orvalho sobre a minha excitação!

O frescor noturno no meu oceano interior!

Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar

Cheia de enorme mistério humaníssimo das ondas noturnas

A lua sobe no horizonte

E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim.

O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo

Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção

Que fosse chamar ao meu passado

Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.

 

Era na velha casa sossegada ao pé do rio

(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar também,

Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo,

Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo

Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às

[mesmas janelas.

Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto...)

 

Uma inexplicável ternura,

Um remorso comovido e lacrimoso,

Por todas aquelas vítimas – principalmente as crianças –

Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo,

Emoção comovida, porque elas foram minhas vítimas;

Terna e suave, porque não o foram realmente;

Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada,

Canta velhas canções na minha pobre alma dolorida.

 

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?

Que longe estou do que fui há uns momentos!

Histeria das sensações – ora estas, ora as opostas!

Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe

As cousas de acordo com esta emoção – o marulho das águas.

O marulho leve das águas do rio de encontro ao cais…,

A vela passando perto do outro lado do rio,

Os montes longínquos, dum azul japonês,

As casas de Almada,

E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!...

 

Uma gaivota que passa,

E a minha ternura é maior.

 

Mas todo este tempo não estive a reparar para nada.

Tudo isto foi uma impressão só da pele, com uma carícia

Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo,

Da minha casa ao pé do rio,

Da minha infância ao pé do rio,

Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,

E a paz do luar esparso nas águas!...

 

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu...,

Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me

(Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)...

Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da

[vida,

E ergue-me uma leve brisa marítima dentro de mim.

As vezes ela cantava a "Nau Catrineta":

 

Lá vai a Nau Catrineta

Por sobre as águas do mar...

 

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval,

Era a "Bela Infanta"... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro

[de mim

E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto!

Como fui ingrato para ela – e afinal que fiz eu da vida?

Era a "Bela Infanta"... Eu fechava os olhos, e ela cantava:

 

Estando a Bela Infanta

No seu Jardim assentada...

 

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar

E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz.

 

Estando a Bela Infanta

No seu jardim assentada,

Seu pente de ouro na mão,

Seus cabelos penteava

 

Ó meu passado de infância, boneco que me partiram!

 

Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição,

E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente!

 

Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. […]


 

Autor: Afonso Lopes Vieira (1878-1946)
Editado por: nicoladavid

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