"À Senhora Maria Laranjo de Praia da Nazaré"



Minha boa Amiga senhora Maria
Laranjo, da praia da Nazaré,

em quem tanto admiro essa fidalguia

de um povo que na Europa o mais fino é,
muito agradecido pelo almoço Real

que aí me deu junto às ondas do mar;
tivera Camões comido um igual,

fazia-lhe versos, mas não a zombar.

Minha boa Amiga senhora Maria
Laranjo , da praia da Nazaré,

por minha mulher a receberia

(se a minha Amiga quisesse, já se vê)
se acaso a conheço quando era solteiro,
para ser agora - ventura tamanha-
em vez de pobre doutor, marinheiro,
mendigo do mar, arrais de companha.

Estando da banda dos pobres do mar
já eu não teria, como tenho às vezes,
remorsos tamanhos e tão graves fezes
de ver tantas dores em roda a penar;

assim penaria e acreditaria

como eles, por lindo milagre da fé,
que depois no mar do Paraíso seria
o pescador mais feliz da Nazaré!...

Mas já que eu errei, por destino fatal,

o que era a minha pura, certa vocação,
saiba que em si louvo e admiro Portugal
no que tem de belo - alma e coração.
E saibam as altas senhoras princesas

que há uma fidalga aí na Nazaré

com quem elas podem aprender finezas
e a dar um almoço que tão fino é.




Autor: Afonso Lopes Vieira (4878-1946)
Editado por: nicoladavid

 

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