"O Mêdo das Sombras"

 

Rondam sombras pelas telhas:
Não é vento são andanças
De bruxas!  As bruxas velhas
Chupam o sangue às crianças.
 

A mãe dorme, a filha ao pé,
Em casa de telha vã
Onde nem há chaminé; 

E de interiores deserta
É toda uma casa aberta
A chuva e sol da manhã. 

E a filha diz para a mãe,
Como a mãe responde à filha,
Porque este drama não tem
A mais do que mãe e filha: 

— Mãezinha, que é, que é?
— Não luz vidro no soalho,
Nem há lume de tição;
Está a gatinha ao borralho. 

Oh! dorme, meu coração,
Susto, filha, não te dê:
A água do bebedouro
Espelha luz que se vê. 

Longe vá o mau agouro,
Benza-me a luz que nos olha:
Quem não existe não é. 

O pucarinho de folha
Lá está no mesmo pé. 

— Pela telha destelhada,
Minha mãe, minha mãezinha,
Voar negro de andorinha
Com risos de gargalhada! 

— Água da bica, lá fora,
Corre, corre, que se chora:
Filha minha, não tens sede? 

— Como peixinhos na rede,
Sombras, ó mãe, na parede! 

Não é nada não é nada:
Buraco da fechadura,
Em rosa de luz coada
Será a luz da madrugada
Que vem em nossa procura.

 

Autor: Afonso Duarte
Editado por: nicoladavid

 

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