Que País É Este?

1 

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento. 

Uma coisa é um país,
outra o confinamento. 

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão. 

Uma coisa é um país,
outra um fingimento. 

Uma coisa é um país,
outra um monumento. 

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento. 

(...)

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis. 

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode. 

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão. 

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva. 

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,   
semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,
sonhamos a paz na Suécia
com suiças militares,
vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia
senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,
bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,
a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,
cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,
pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas

 
Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais. 

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina. 

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,
o salário que nos come
e nossa sede canina,
a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína,
nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina,
e nesse mundo às avessas
- a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.

Autor: Affonso Romano de Sant’Anna        
Editado por: nicoladavid


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