Paságarda


Foi preciso que um poeta brasileiro
te sonhasse
e que outro
aqui viesse
para que em ti -Pasárgada
os extremos se encontrassem.

Não careço dizer
o quanto me custou
o transe
o passe
antes que aqui
o mágico tapete
da poesia 
me aportasse. 

Pasárgada enfim
entreabriu-se
aos meus passos.

Poeta
aqui estou no Paraíso
que
despudoradamente
cantaste.

Mas onde supunha
um jardim de delícias
me esperasse
abriu-se uma lição de ruínas
como se Pasárgada fosse
o paraíso que pelo avesso
se ostentasse. 

Primeiro visito
a tumba de Ciro
que a criou
para que das pelejas
descansasse. 

-Aqui jaz “o rei dos reis”
cujo império da Babilônia à Etiópia
do Afeganistão à Capadócia 
ia aonde seus arqueiros e cavalos
chegassem.
“Não lamente oh! mortal
aquele que aqui jaz
pois ele fez tudo o que fez
e reinou na guerra e paz”.

Adiante
entre ruínas
está Pasárgada.

Onde o ruído dos escudos
o atropelo das patas dos corcéis em guerra
o alarido das lanças
os sons dos instrumentos em festa
ecoando nos canais
jorrando nos jardins?

Caminho entre derribadas pedras
me atrevo entrar no Portal da Casa
na Sala de Audiências
no Palácio Residencial
e piso os quatro degraus restantes
do Altar do Fogo
com quatro homens alados em relevo.

Foi preciso
que nas mesmas planícies
em que Ciro ergueu o seu império
Alexandre irrompesse
e a tudo devastasse
foi preciso
que o vencedor
se visse diminuto
e ante a tumba do vencido
se persignasse
e pedisse a um sábio
que o que estava ali inscrito
traduzisse
e lhe explicasse
foi preciso
que a ruína e a glória
na mesma pedra aflorassem
e o amor ensinasse à morte
lições
que só na morte renascem
foi preciso
que um poeta brasileiro
te carecesse
e outro
de sobejo
te buscasse
que ao Oriente pelo Ocidente
a poesia chegasse
foi preciso
que o menino
no velho despertasse
e que de sucesso
em sucesso
o jovem fracassasse
foi preciso 
provar que em Pasárgada
não se chega como conquistador
mas como quem reinando
obedecesse
e partindo
ficasse

e olhando as ruínas
nelas algo edificasse
como se a vitória
pelo avesso celebrasse. 

-o não-lugar
onde a poesia 
reinasse.

Autor: Affonso Romano de Sant’Anna      
Editado por: nicoladavid


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