O ANÃO DE MARRAQUESH

Em Marraquesh
há um anão
que ensandece as mulheres.

Elas vão ao banho
(dizem aos maridos)
fazer limpeza de pele
mas algo a mais
ali sucede

basta ver como depois
além do corpo
a alma
lhes vai leve.

O segredo deste anão
está guardado
na palma de sua mão
pois com seus dedos
sabe sublimar
as mulheres.

Elas vêm e ele
com silencioso gesto
pede que se dispam
-se despem.se ele dissesse: voem
voariam, se dissesse:
dancem, dançariam
se dissesse: amem-me
-o seu mínimo corpo
amariam.

Mas pede apenas
que larguem suas vestes
e se deitem
à espera
que suas pequenas mãos
se agigantem e abram
portas janelas
desvãos abismos
na vertigem
da viagem
dentro da própria pele.

Quando se despem
despedem-se
dos maridos
e já não mais carecem
de amantes
é como se Penélope
convertida em Ulisses
nas mãos do anão
a Odisséia sentisse.

Ninguém sabe
exatamente
o que seus dedos operam.
Começa pelos pés
e algo vem subindo
devagar ao leve toque
que não toca
que roça
mas não fere
que solicita
e impera
e vai em círculos
como se o bem e o mal
se transcendessem
numa espiral
de delícias.

Os maridos e parceiros
ficam no hall do hotel
bebendo uisque
nas quadras

jogando tênis
e nunca saberão
o que ocorreu
ao leve toque
daquelas pequenas
potentes
suaves
mãos.

Finda a massagem
(nome conveniente
à transfigurante
viagem)
as mulheres reaparecem
translúcidas
caminhando
a um centímetro do chão
irrompem inalcançáveis
como se tivessem
tido uma visão.

Aos maridos não adianta
qualquer explicação.

Há na pele da alma delas
algo de que jamais
se esquecem:
o irrepetível toque dos dedos
e das mãos
do anão de Marraquesh.


Autor: Affonso Romano de Sant’Anna     
Editado por: nicoladavid


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