"Lapidar Uma Mulher"


Há quem tente lapidar

 uma mulher

como se lapida

jóia rara

   e pedra bruta.

Com escalpelo

 cinzel

buril

inscrevem nela uma figura, depois

a expõem nos salões

revistas e altares

apregoando quantos  camelos

                    quantos colares

vale o dote

-da criatura.

 

Na Nigéria também

lapida-se mulher

mas de forma

inda mais dura.

 

Não bastassem

os muros em que  viva

vive emparedada

é sob pedras

que a mulher viva

é pétrea e friamente

sepultada

quando não se conforma

com a forma

como desde sempre

é deformada.

 

Assim a mulher

que se nega a ser

por eles esculpida

deve morrer como viveu:

-petrificada.

 

Atiram-lhe

tantas pedras

até que não se veja

a forma e o sangue

da apedrejada,

até que a mulher-alvo

alvejada

desapareça numa maré de pedras

coaguladas. 

 

Desta feita os escultores

foram mais perfeccionistas

deixaram a mãe

amamantar o filho

antes que o leite no seio

se petrificasse.

Assim o filho  na fonte beberia

o pétreo ensinamento

                                  antes 

que a fonte secasse.

 

Ao amante não lapidaram.

 

Ali o homem já nasce feito

é obra de arte que dispensa

qualquer lapidação.

A mulher, sim, carece

de acabamento

posto que imperfeita figura

na ordem da criação.

Autor: Affonso Romano de Sant'Anna
Editado por: nicoladavid


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