A Bela Do Avião

Mereço tocar em teus cabelos,

Loira e anelada mulher

Que não me conheces

E estás sentada a dois metros de mim neste avião.

 

Te contemplo com intimidade. Sei

Teus contornos e perfumes.

Reclinas teu assento para dormir

E fechados os olhos viajas

Para alguém que te espera, ou não,

Sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,

Em tua boca perfeita

Teu sublime nariz,

Sem saber que conheço teu corpo

Com uma intimidade absoluta.

Estou te vendo , com extremado pudor,

Em peças íntimas no quarto,

Sei da ponta de teus seios

E do grito que lanças ao gozar.

 

Como deve ser importuno

Carregar continuamente

Essa beleza

Publicamente cobiçada!

 

Poderia te falar

Mas te sentirias imediatamente punida

Por seres linda.

 

Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros

À tua passagem ,

Pois carregas o fastio da beleza

Esse ornamento difícil de ostentar.

 

Nunca saberás que um poeta

Assim  te contemplou

Nunca  saberás que estás aqui descrita.

Nunca poderás te valer  destes meus versos,

Quando, sendo bela, chorares como as feias

E aviltada, quiseres morrer

Na hora da traição.

 

Autor: Affonso Romano de Sant’Anna(1937)    
Editado por: nicoladavid


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