Saudades do Cão “Mondego”



Pastor um tempo e agora pegureiro,

Vivo o mais infeliz deste montado,

Sem Pátria, sem cabana, e sem mais gado,

Que as feras que me cercam neste outeiro.

 

Tudo o mais me roubou o derradeiro

Dia em que fui feliz: que o duro fado

Até por me deixar mais desgraçado,

A vida me arrancou do meu rafeiro.

 

Ele por toda a parte me assistia,

E com tanta lealdade, que comigo,

Se acaso eu fosse à morte, à morte iria.

 

A fome, a sede, a calma, o desabrigo,

Só por me não deixar, fiel sofria;

Eu perdi nele o mais leal amigo.

 

Autor: Abade de Jazente (1719-1789)
Editado por: nicoladavid

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