Esta vida infeliz que me não larga


Esta vida infeliz que me não larga,

Só por dar ao meu mal maior aumento,

Parece que igualando o meu tormento,

Quanto mais ele cresce, ela se alarga.


Tenaz não quer deixar-me; e tanto amarga

Me rouba o gosto, e esgota o sofrimento,

Que multas vezes sacudir intento

Dos ombros fracos meus tão longa carta.


A Parca invoco então; e a Parca dura

Os votos me rejeita, as costas vira,

E vai ferir a quem a não procura. 
 

Porque quando a morrer um triste aspira,

Como a morte lhe serve de ventura,

A morte encosta a fouce, e se retira.


Autor: Abade de Jazente (1719-1789)
Editado por: nicoladavid


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