Aqui, onde me trouxe o fado duro


Aqui, onde me trouxe o fado duro

Para passar da vida o triste resto,

É tudo um espectáculo funesto,

Em que a vista apascento, o peito apuro.


Do Marão carregado o forte muro,

E dos penhascos o medonho gesto,

Um me prende, outro faz com que molesto

Seja aos meus passos este albergue escuro.


Aqui só por instinto se governa

A gente bruta: aqui feroz me avisa

Da brenha a fera, a serpe da caverna.


Aqui todo o meu mal me martiriza;

Que até, para fazer-me mágoa eterna,

O aspecto de mim mesmo me horroriza. 
 

Autor: Abade de Jazente (1719-1789)
Editado por: nicoladavid


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