Pouco acima daquela alvíssima coluna

 

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou, vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros — hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios do meu infinito amor . . .

Taça que encerra por suma graça
tudo que a terra de bom produz!
Boca! o dom possuis de pores louca a minha boca
Taça de astros e flores, na qual esvoaça meu ideal!
Taça cuja embriaguez na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

Autor: Hermes Fontes (1888-1930)
Editado por: nicoladavid

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