Diário de Um Sonho

 

É de outro artista — não me lembra o nome —
que o Poeta, no seu sonho de arte, é alguém
à parte… É como a aranha, que consome
todo o tempo, na rede a que se atém.

E, alheio ao próprio tempo, que carcome
o brilho às cousas, séculos além,
eu ia — aranha — superior à fome
e à sede, e, aranha, me sentia bem…

Na solidão, como num canto escuro,
tecia a teia rósea do Futuro,
quando me entraste, a rir, tonta de sol…

E, de então, sem te ver (e ver-te é raro!),
não sei tecer… só sei tecer no claro,
não sei tecer sem ti meu aranhol…

Autor: Hermes Fontes (1888-1930)
Editado por: nicoladavid

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