Andorinha

 

À esfera, cujo azul glorioso abril desvenda

para a festa da luz, prodigamente esparsa,

a emigrante voltou. A sua alma é uma lenda,

do éter bordada na alta e invisível talagarça.

 

Alvinegra, pelo ar, ei-la que o voo emenda,

brinca, ziguezagueia, já a descer - disfarça,

alteia... e, assim, até voltar à humilde tenda,

onde tem glórias de águia e vaidades de garça.

 

E, quando, entre outras, chega enchendo o espaço de asas,

o coração lhe fica onde a prole se aninha,

no beiral de uma torre, erguida às coisas rasas...

 

A vida humana é tão diversa, é tão mesquinha!...

- Pudéssemos nós ter, no recesso das casas,

a alegria feliz do lar dessa andorinha!...


Autor: Hermes Fontes (1888-1930)
Editado por: nicoladavid

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