"O Meu Cão"



Há muito que morreu o pobre! amigo!

Companheiro leal, vi-lhe o seu fim.

E, nest'hora, em que choro a sós comigo,
Parece que ainda o sinto atrás de mim.

Os mesmos passos leves, quase humanos,
Os mesmos olhos procurando o céu,
Como os olhos daquela que alguns anos
Antes de eu o perder, também morreu.

Que morreu, como tudo o que até agora
Trouxe
à minha existência dolorida

A ventura, que passa numa hora;

E a dor, que fica para toda a vida.

Nossa amizade cada vez maior,

Com menos emoção do que era a sua,
Fazia eu versos, que ainda sei de cor,
Meus versos, ele uivava-mos
à lua.

Mas éramos felizes como o são
Aqueles p'ra quem é suficiente
Um pobre e pequenino coração

Capaz d'amar e dar-se a toda a gente.

Estou a vê-lo, quando entrava aquela

Que era a beleza, a graça, tudo enfim,
Dum salto erguer-se e ir a correr p'ra ela,
P'ra lhe beijar as mãos antes de mim.

Que de saudades a minha alma. evoca
De tantos anos de ilusória fé! ...

Mas as palavras gelam-me na boca

E o que os meus olhos choram, não se vê!

Encheu de afectos todo o meu passado!

E quantas vezes, p'ra mim próprio, eu digo
Que, se o melhor no amor é ser amado,

O melhor na amizade é ser amigo!

 

 

Autor: Fausto Guedes Teixeira (1871-1940)
Editado por: nicoladavid

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