Ditosa ave




Quem fosse acompanhando juntamente

Por esses verdes campos a avezinha,
Que depois de perder um bem que tinha,
Não sabe mais que coisa é ser contente!

E quem fosse apartando-se da gente,
Ela por companheira e por vizinha,
Me ajudasse a chorar a pena minha,
E eu a ela também a que ela sente!

Ditosa ave! que ao menos, se a natura
A seu primeiro bem não dá segundo,
Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.

Mas triste quem de longe quis ventura
Que para respirar lhe falte o vento,
E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!

 


Autor: Luís Vaz de Camões

Edit. por: nicoladavid

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