Rola mundo

 

Vi moças gritando

numa tempestade.

O que elas diziam

o vento largava,

logo devolvia.

Pávido escutava,

não compreendia.

Talvez avisassem:

mocidade é morta.

Mas a chuva, mas o choro,

mas a cascata caindo,

tudo me atormentava

sob a escureza do dia,

e vendo,

eu pobre de mim não via.

 

Vi moças dançando

num baile de ar.

Vi os corpos brandos

tornarem-se violentos

e o vento os tangia.

Eu corria ao vento,

era só umidade,

era só passagem

e gosto de sal.

A brisa na boca

me entristecia

como poucos idílios

jamais o lograram;

e passando,

por dentro me desfazia.

 

Vi o sapo saltando

uma altura do morro;

consigo levava

o que mais me valia.

Era algo hediondo

e meigo: veludo,

na mole algidez

parecia roubar

para devolver-me

já tarde e corrupta,

de tão babujada,

uma velha medalha

em que dorme teu eco.

 

Vi outros enigmas

à feição de flores

abertas no vácuo.

Vi saias errantes

demandando corpos

que em gás se perdiam,

e assim desprovidas

mais esvoaçavam,

tornando-se roxo,

azul de longa espera,

negro de mar negro.

Ainda se dispersam.

Em calma, longo tempo,

nenhum tempo, não me lembra.

 

Vi o coração de moça

esquecido numa jaula.

Excremento de leão,

apenas. E o circo distante.

Vi os tempos defendidos.

Eram de ontem e de sempre,

e em cada país havia

um muro de pedra e espanto,

e nesse muro pousada

uma pomba cega.

 

Como pois interpretar

o que os heróis não contam?

Como vencer o oceano

se é livre a navegação

mas proibido fazer barcos?

Fazer muros, fazer versos,

cunhar moedas de chuva,

inspecionar os faróis

para evitar que se acendam,

e devolver os cadáveres

ao mar, se acaso protestam,

eu vi; já não quero ver.

 

E vi minha vida toda

contrair-se num inseto.

Seu complicado instrumento

de vôo e de hibernação,

sua cólera zumbidora,

seu frágil bater de élitros,

seu brilho de pôr de tarde

e suas imundas patas...

Joguei tudo no bueiro.

Fragmentos de borracha

e

cheiro de rolha queimada:

eis quanto me liga ao mundo.

Outras riquezas ocultas,

adeus, se despedaçaram.

 

Depois de tantas visões

já não vale concluir

se o melhor é deitar fora

a um tempo os olhos e os óculos.

E se a vontade de ver

também cabe ser extinta,

se as visões, interceptadas,

e tudo mais abolido.

Pois deixa o mundo existir!

Irredutível ao canto,

superior à poesia,

rola mundo, rola,

rola o drama, rola o corpo,

rola o milhão de palavras

na extrema velocidade,

rola-me, rola meu peito,

rolam os deuses, os países,

desintegra-te, explode, acaba!

 

Autor: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Editado por: nicoladavid

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