"Cantar à maneira de solao"

 

 

Pensando-vos estou, filha,

Vossa mãe me está lembrando;
Enchem-se-me os olhos d'água,
N ela vos estou lavando.

Nacestes, filha, antre mágoa,
(Para bem, filha, vos seja!)
Que no vosso nacimento
Vos houve a fortuna inveja.

Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes:

Vossa mãe era finada,
Nós outras éramos tristes.

Nada em dor, em dor crecida,
Não sei onde isto há de ir ter,
Vejo-vos, filha fermosa,

Com olhos verdes crecer.

Não era esta graça vossa
Para nacer em desterro,
Mal haja a desaventura

Que pôs mais nisto que o erro!

Tinha aqui sua sepultura
Vossa mãe, e mágoa a nós;
Não éreis vós, filha, não,
Para morrerem por vós.

Não houve em fados razão,
Nem se consentem rogar,
De vosso pai hei mor dó,
Que de si se há de queixar.

Eu vos ouvi a vós só,

Primeiro que outrem ninguém,
Não foreis vós, se eu não fora,
Não' sei se fiz mal se. bem.

Mas não pode ser, senhora,
Para mal nenhum nacerdes,
Com este riso gracioso,

Que tendes sob olhos verdes.

Conforto, mais duvidoso
Me é este que tomo assi,
Deus vos dê milhor ventura
Da que tivestes qui.

Que a Dita, e a Fermosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo dantes muito amigas.

Muitos hão que é fantesia
Eu que vi tempos e anos,
Nenhuma cousa duvido
Como ela é caso de danos.

Mas nenhum mal não é crido;
O bem só é esperado,

E na crença e na esperança,
Em ambas há i mudança,
Em ambas há i cuidado.


Auror:  Bernardim Ribeiro
Editado por: nicoladavid

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