"Por Que a Grandeza é Dor ?"

                            
 
 
A  António Nobre

Caía a noite. Tu ias fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No firmamento português :
E ela traçava-te o teu fado:
"Serás Poeta e serás desgraçado."
Assim se disse, assim se fez.

Mas tudo passa neste Mundo transitório.
E tudo passa e tudo fica. A vida é assim
E sê-lo-á sempre pelos séculos sem fim. 

Vejo o relógio na parede como outrora
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora.

Ainda lá estão os cravos, no jardim
(Mas já não são as mesmas notas de clarim.

As andorinhas ainda têm o mesmo fito
(Mas já fizeram cem jornadas ao Egito.)                  

Nojo de tudo, horror. Trazias sempre luvas
(Na aldeia, sim) para pegar num cacho d'uvas,
Ou numa flor. Por causa das mãos ... Perdoai-o,
aldeões, sabia que vós sois puros. Desculpai-o. 

Ainda lá está o figueiral com figos
(Mas não a tua mão a dá-los aos mendigos...)

Paisagens, onde estais ? Ó luar, águas profundas,
Ó choupos, à tarde, altivos mas corcundas,
Tal como aspirações irrealizáveis, ai,
No livro mais triste que há em Portugal.


 

Autor: Aricy Curvello
Editado por: nicoladavid

 

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