"O Verme"



O coração, enfermo porque vive

do que morre,debruça-se à janela,

vê a luz desertando-o no declive

entre a vida e a paixão do ser por ela,

e comovido vai compor a tela

em que a reduz para contê-la. Eu tive

essa mesma ilusão, compus a bela

equação passional da mente livre

e pus meu coração nesse vazio.

Mas falhei. Ele nunca permitiu

o oásis ilusório na epiderme

sensível do real. Eu tinha um verme

no coração, que foi roendo o fio

da ilusão e acabou por socorrer-me.

 

Autor: A. Bruno Tolentino  (1940-2010)
Editado por: nicoladavid



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