O amador de serpentes

 

I

O ser é uma canção por Deus cantada,
e existe unicamente porque a canta
e canta e canta a voz dessa garganta
imemorial: e voltaria ao nada

se acaso interrompida na calada
da noite universal a sacrossanta
garganta emudecesse. Ah, canto, canto,
frase que te imaginas separada

da voz que te proclama e pronuncia,
enlouqueceste e, como uma espiral
demente, uma serpente na agonia,

negas que és duração e movimento
dessa voz infinita e musical,
tu, o hálito mesmo desse alento!

II

Ah, canta, canta a mal-agradecida
canção que se reclama emancipada,
como se a grande festa colorida
não fosse justamente uma alvorada

vinda toda de cima: o todo em cada
palheta detalhada e enternecida
de Deus… Como se cada pincelada
não fosse unicamente, como a vida,

dom do dedo de Deus no multicor,
prodigioso teto da capela
prevista: o alto arremesso do esplendor,

o ser transbordamento da mais bela
cornucópia, a do instante criador,
canção, canção subindo estrela a estrela…

III

E tal um longo afresco pela abóbada
universal, continuamente ecoa
a solene canção que nunca é toda
cantada, que só dura enquanto voa,

e vai do mais alto e mais além e aborda
o infinito fugaz como se fora
ela só o rebento dessa boda
da imanência de Deus com a luz lá fora.

No ar, no som, no reino aqui de baixo,
se um tão frágil prodígio se contempla
descobre-se na voz que o põe no espaço

e que o sustém no tempo: por exemplo,
quando acode à notinha que do alto
começa a resvalar, anda tremendo…

IV

Se os cabelos de ofídio da Medusa
mordessem-na… Mas não: aquelas cobras,
doido acorde de negras semifusas,
sabem que fazem parte dessa obra,

a obra-prima do mal que o sonho usa
para enredar-se, confundir-se às dobras
sinuosas, sem Deus… Tudo o que sobra
do ser que nega o ser é uma recusa.

Ó enigma da paixão que se apaixona
por si mesma! Ó absurda marafona
nostálgica do eclipse na obscena

obsessão da negação do nexo!
Que volúpia se nutre desse amplexo
em que o imenso, amputado, se apequena?

Autor: A. Bruno Tolentino (1940-2010)
Editado por: nicoladavid

Comments