D’o Castelo Interior


Não saberei, Senhor, se era possível

evitar o degredo ensimesmado,

se ao coração sedento de invisível

e cedo emparedado em seu quadrado

de febre, de impureza e de impossível,

fora talvez possível, por um lado,

escapar à masmorra, ou preferível,

por outro, haver crescido encarcerado.


Sei que duro é o exílio e que difícil

a arte de, nos pulsos tendo algemas,

escalar pedra a pedra o precipício.


Sei quanto é frio o fogo em que nos queimas,

que renitente a lenha e quão propício

teu cadafalso às almas mais extremas.

 

Não permitas, Senhor, que a minha carne

se confunda outra vez e eu me atrapalhe

e caia como cartas de baralho

o castelo em que entrei para salvar-me.

Teresa, castelã, valha o que valha

o meu fervor, o meu fragor de armas,

sustentai-me, rogai que eu não desarme,

que não se apague o fogo meu, de palha,

talvez, mas seja palha de fogueira;

fogo de auto-da-fé, se necessário,

mas fogo irrevogável, se primeiro

hei de arder que render-me ao ilusório.


E se hei de merecer algum martírio

tanto mais duro quanto o assédio é sério.

 

Autor: A. Bruno Tolentino  (1940-2010)
Editado por: nicoladavid



Comments