A imitação do amanhecer

 


                                                         
“Eu vos compensarei                                                 pelos anos que o gafanhoto comeu...” 
                                                                                    (Joel, 2: 25)

 

O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara, 
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos 
que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos. 
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu – repara
como crescem espigas entre escombros humanos...
Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita, 
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus, 
fazendo-os ver que, no trigal em que se deita 
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se 
foi como grão – entre a seara e a colheita.
 

II. 
Há algo mais que me ocorre a propósito disto,
um algo mais que há de ser sempre a diferença
entre a vaga oratória que chamamos de “crença”
e o sentido da História: esse “algo mais” é o Cristo.
 
Ou Jesus, se preferem; ou Joshua, o homem visto 
em seu corpo de glória. A visão era intensa, 
mas não era outra imagem: a Perfeita Presença 
não é um personagem ou uma noção, é um quisto, 
uma intrusão carnal por sob o imaginário
de cada ocidental. Que pode não segui-Lo, 
reembobinar a História, ater-se a isto ou àquilo, 
e dar o resto às Parcas... Mas resta que, ao contrário
do óbvio e do imprevisto, o Verbo, a Forma e o Estilo
são o Corpo do Cristo, o uno por trás do vário.

II
Ninguém fará jamais da mera negação
um solo firme, um chão em que edifique nada, 
e a fábula do ser é uma edificação, 
que fazer...? Edifica-se a Cruz quando a alvorada 
prega os braços da luz num muro, ante a calçada
de um terreno baldio, num vazio, num vão
entre este mundo e seus reflexos na amplidão:
é ali que o ser, na escuridão crucificada, 
recobra uma vez mais solidez e estatura. 
Se a História fosse apenas uma charada triste, 
uma tirada à parte do Todo, à criatura
ainda lhe restaria aquela Cruz em riste
de encontro a um Céu em derrocada: “Deus existe”
(soluça o nada); “Um corpo morre mas procura-O!”.

III

Deixai-me entre esses dois extremos exemplares: 
a dor elementar, de Estela senciente,
de um grande cervo branco ante a noite iminente, 
e a rosa itinerante de todos os lugares, 
de todos os instantes de Alexandria... Os pares 
perfeitos são opostos, e entre um deles, à frente
um sol como fantasma, atrás a luz cadente, 
hei de durar sozinho enquanto tu durares, 
ó labareda ao longe, ó cego atrás do lume, 
ó vivo amor da viuvez como perfume,
ó limpa, ó lúcida altivez, ó cervo agora 
e para sempre oposto à imitação da aurora, 
que o velho Egito diviniza! 
Numa saudade é a eternidade que agoniza.



Autor: A. Bruno Tolentino (1940-2010)
Editado por: nicoladavid

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